Esta semana, recebi com surpresa e muita alegria uma fotografia antiga muitíssimo especial. Foi mais uma das que voou pelo whatsapp a dentro e em milésimas de segundo veio aterrar no meu telemóvel.


Quem a mandava? A minha mãe! Conseguira uma rara imagem do meu avô, o seu pai, e rapidamente ma enviou. Está junto à Banda Filarmónica que o viu nascer, bem como à alargada prole de onze filhos e filhas, em Cabanas de Viriato (histórica aldeia do Distrito de Viseu, em Portugal e que como o nome indica serviu de assento a Viriato e ao seu exército durante as épicas vitórias e feitos que este realizou contra as tropas romanas durante o século II a.C.). Devo dizer que este homem, o meu avô não o Viriato, dedicou a sua vida ao trabalho, à família e, claro está, à banda filarmónica da sua aldeia. Participou na sua fundação e foi membro integrante da mesma até uma idade bastante avançada (creio que a minha enorme paixão pela música ter-me-á chegado também através dele e do seu exemplo de dedicação). “Sempre que ia tocar a alguma outra aldeia, vila ou cidade trazia os bolsos cheios de pequenas surpresas para nós: guloseimas, brinquedos…” – contou-me a minha mãe, recordando episódios deliciosamente bonitos da sua infância.


Podem vê-lo aqui (o primeiro da esquerda) com um semblante concentrado para sair bem na “chapa”, ele que foi sempre conhecido pelo permanente sorriso que dia sim e dia também, ostentava no seu rosto rugoso e queimado pelo sol do campo. Garanto-vos que o João “dos pratos”, como era conhecido por toda a gente, foi/é provavelmente o homem mais bondoso que conheci até hoje. Sei que sendo seu neto pode soar imparcial ou tendencioso, mas é realmente assim! Jamais lhe percebi uma expressão de desagrado, zanga ou mau humor. Era assim, alegre, feliz e ponto!


Recordar é viver! Claro que ao ver a fotografia vieram-me à memória toneladas de momentos, pessoas, sabores e cheiros e uma mão cheia de fortes emoções. Estavam de repente comigo os primos e primas a correr descalços em frente ao cruzeiro da casa familiar feita de pedra. As mulheres da família conversando e rindo enquanto preparavam um coelho para a cabidela que degustaríamos todos juntos ao almoço. As galinhas a cacarejar como loucas dentro da capoeira porque o galo não as deixava em paz. O meu avô trabalhando o vinho dentro da adega, junto às pipas envelhecidas, com aquele típico perfume da humidade misturada com o mosto no ar. A minha avó sentada junto ao forno a lenha distribuindo pão com chouriço pelas dezenas de netos e netas, os catraios que por ali andavam nas suas correrias e brincadeiras. Um carro velho que irrompia pela aquela curva da nacional, junto ao pátio, apitando repetidamente. Algum vizinho que passava e dava as boas tardes.


E depois veio a vontade, a urgência, de regressar lá. Àquela povoação onde tudo começou. Há muito que lá não vou e as últimas visitas foram fugazes e motivadas por partidas de familiares. Está a faltar regressar com tempo e paciência para caminhar pelas ruas empedradas, ver o que estava e já não está, também o que mudou. Mas sobretudo pisar as raízes que ali permanecem e visitar os poucos ramos familiares que ali se encontram instalados. “É incrível com certas pessoas e determinados locais podem ser determinantes e modelares mesmo sendo pinceladas rápidas no quadro da nossa existência”, penso enquanto me dou conta que durante a minha vida devo ter estado ali pouco mais de uma dezena de vezes.


Afinal de contas, (e é aqui que quero chegar) como bem se demonstra na celebração da “noche de los muertos” no México, podemos dar vida eterna às pessoas que recordamos. Se ou quando já ninguém nos lembrar, deixamos de existir. Talvez, tendo isto em mente, possamos começar ainda em vida a tratar de ser, fazer, sentir, partilhar, construir e amar de maneira a ir entrando na memória de quem é importante para nós. Desconheço a melhor estratégia para o fazer, mas estou certo que ser profunda e legitimamente bom, praticar a bondade para com o próximo, é uma das maneiras mais simples e direta de lá chegar. O melhor que nos poderá acontecer será dentro de muitos, muitos anos, haver alguém que nos veja numa foto esbatida pelo tempo e ainda antes de cheirar as memórias, sorria!


GNTK – Raízes 3:48



Editorial

Esta semana regressamos com sugestões que nos farão viajar por geografias variadas, contactando com a ruralidade, o campo e a natureza no seu estado mais puro. Mas também pisaremos espaços urbanos e as ruas de grandes cidades e metrópoles, sempre focando a gente que cria, recria e conta as estórias de que o mundo é feito.


A nossa travessia inicia-se por uma imersão no cerne da música popular portuguesa, sem complexos, sem luxos nem grandes efeitos especiais ou fogos-de-artifício. Abriremos a caixinha de A Música Portuguesa a Gostar dela Própria para constatar que nem sempre é mau ser-se um pouco narcisista e que não é preciso ser-se Mozart ou Jimi Hendrix para compor temas musicais inebriantes, cantar e tocar instrumentos.


Ainda cantarolando canções ao ritmo do estalido dos dedos e entre assobios, chegamos à segunda paragem. Aterramos bem pertinho da linha equatorial, no belíssimo e açucarado arquipélago de São Tomé e Príncipe. Entre aromas de café e cacau visitaremos alguns dos locais mais emblemáticos, enquanto cozinhamos entre sorrisos Na Roça com os Tachos.


A imensa natureza exótica, este povo tão amável, generoso e genuinamente anfitrião, mais as paisagens de cortar a respiração… É uma jornada fantástica, mas lenta e progressivamente começamos agora a sentir vontade de saltar de novo até à urbe, com a sua confusão inebriante, as luzes intermitentes e o ritmo acelerado – reféns talvez desta coisa de querermos sempre o que não está à mão de semear… Então, num pulo, entramos a abrir no mundo artístico colorido, multifacetado, inovador e incrivelmente rico de Odeith e Bordalo II, dois jovens artistas portugueses absolutamente geniais na forma como conceptualizam e executam as suas obras.


Eis então que surge o convite para nos adentrarmos nos túneis da língua portuguesa, sem nos deixarmos perder nos seus labirintos. É melhor irmos com quem sabe do assunto! Vamos apanhar boleia do Babelite com os provérbios ao volante e as expressões idiomáticas no banco do pendura. E nós? Lá atrás, bem sentadinhos a gozar as curvas.


O circuito aproxima-se já do final… Vamos até ao Brasil sem sairmos do sofá, claro. Com o Novo Cine podemos empanturrar-nos de curtas até nos sair cinema de alta qualidade pelos ouvidos. Sim, em versão original! Sim, grátis! Ainda bem que há coisas das quais podemos abusar sem nos sentirmos culpados e cujos efeitos secundários só poderão ser benéficos.


Até já!


1. Música portuguesa??? Com muito gosto!

Acontece com frequência que começamos por ver o que está lá longe, no horizonte, sem antes observarmos atentamente o chão que pisamos. Não que haja algum mal nisso, cada um deve caminhar como e para onde quer. Só que andar sempre com binóculos faznos passar ao lado de verdadeiros tesouros que estão mesmo à frente do nosso nariz.


Observo como a rapidez estonteante com que recebemos música de todo o globo, de diferentes géneros e estilos, privilegiando os tops, por vezes não deixa espaço para podermos ver (neste caso escutar) os temas, as canções populares que piam em voz baixinha nos youtubes e afins.


Neste sentido, A Música Portuguesa a Gostar dela Própria, trabalho que Tiago Pereira (realizador, documentarista, visualista, mentor e coordenador deste projeto) e a sua equipa vêm realizando desde 2011 é absolutamente notório. Num excelente labor de documentação resultante de uma pesquisa exaustiva é-nos apresentado um panorama abrangente da música popular feita em Portugal , na sua versão mais autêntica e genuína. Recordam-se a tradição oral, as cantigas, os romances, os contos, as práticas sacroprofanas, as músicas, as danças e também a gastronomia, reutilizando fragmentos da memória de um povo. Aqui não encontramos estrelas e palcos gigantes, nem lantejoulas ou luzes e focos potentes, tão pouco colunas do tamanho dum camião… Em compensação somos enfeitiçados por vozes absolutamente únicas e preciosas, instrumentos artesanais e ancestrais e também instrumentos acústicos ou elétricos. Tudo isto emoldurado com os rostos do povo (desde anciãos a crianças) em cenários quotidianos (interiores e exteriores, urbanos, rurais e campestres) capazes de cortar a respiração, que contam estórias sem a necessidade de dizer.


A visita à web possibilita pesquisar por distritos e ilhas, num total de 2980 projetos apresentados em 5368 vídeos, reunindo 9171 instrumentos (dados do dia 30 de novembro de 2020). Números que à medida que teclo me parecem surreais e custam a assimilar, sublinhando a grandiosidade desta iniciativa. Podemos também aceder ao canal do youtube e escolher os vídeos a la carte.


Merece totalmente a pena dar uma vista de olhos e uma escuta de ouvidos. Pezinho de dança garantido!


2. Façam o favor de ser felizes!

É com esta melosa e alegre frase que João Carlos Silva (JCS), no seu sorriso de orelha a orelha, se despede em cada um dos episódios de “Na Roça com os Tachos”.


Neste programa da RTP2 que se emitiu entre 2003 e 2005, somos convidados a viajar pela mão de JCS através da beleza única e da tremenda paisagem exótica do arquipélago de São Tomé e Príncipe, a pretexto de aprender mais sobre a culinária local usando os recursos naturais.


Em cada capítulo JCS desloca-se a uma roça diferente onde prepara 3 pratos (normalmente uma entrada, um prato principal e uma sobremesa) usando os produtos locais. Pelo meio contacta com as gentes, faz referências culturais e históricas e mostranos aspetos da fantástica flora.


Se esperam cozinhas ultra-sónicas ou de última geração, tirem o cavalinho da chuva – isto não é para vocês. É fascinante o tanto que se pode fazer com tão pouco! A cozinha conta apenas com o essencial: uma bancada, um pequeno fogão a gás e meia dúzia de utensílios… Só que o “chef” JCS vai cozinhando enquanto brinca e nos embala com o seu bom-humor e boa disposição. Ali dança-se, canta-se, “namora-se” com os alimentos, tudo com tempo, pausado e com carinho, enquanto se vai preparando o petisco, sempre ao som de excelente música e de algumas piadas com o câmera – Calú.


Mesmo quem não tem mãozinha de cozinheiro deve dar uma olhadela a esta delícia, sobretudo nos dias em que estamos “de chuva”, cabisbaixos, mal-humorados ou a precisar de genica. As cores de São Tomé e Príncipe e a alegria de JCS contagiam e curam!


3. Urbanar-te

A arte urbana, da rua com a rua e na rua, nas suas mais variadas formas é hoje em dia um potente dínamo cultural e uma das expressões de criatividade associadas a mensagens pensadas, com uma intenção clara (por vezes rompedora, provocadora ou agitadora), um espírito inovador e em constante transformação. Se andarmos com os sentidos alerta enquanto passeamos pelas ruas das grandes cidades do mundo, é impossível não sermos convidados pelos estímulos à nossa volta a apreciar obras de pintura, escultura, desenho, graffiti, entre outros.


Uma das características mais fascinantes de alguns destes artistas é a integração de materiais pouco convencionais nas suas criações, dando uma segunda oportunidade a estruturas e edifícios que estavam moribundos, à beira da morte, e esquecidos ou abandonados pela nossa vista. Mas muitas vezes não se ficam por aí, usando diretamente esses materiais já encaminhados ao desuso, ao lixo, ao fim terminal, como parte integrante e definidora das suas obras.


Nesta perspetiva transformadora e recuperadora, encontramos dois nomes que vêm realizando um trabalho simplesmente extraordinário, cada vez mais reconhecido em Portugal e a nível internacional.


Um verdadeiro mestre no uso da perspetiva, da escala e conhecido pelo perfeito realismo tridimensional, Odeith resgata paredes em escombros, espaços devolutos e outras estruturas abandonadas e dá-lhes uma nova vida. O seu trabalho surpreende pela forma, mas também pelo conteúdo e a visão conceptual que transpira em cada novo projeto do artista. Filho da revolução – nascido nos finais dos anos 70 – representa uma geração de ouro no que respeita à arte urbana em Portugal.


Um pouco mais jovem, nascido no final dos anos 80 e igualmente genial, Bordalo II tem uma abordagem artística simplesmente singular. Este artista recupera materiais do lixo e transforma-os em “luxo” artístico. Numa perspetiva que promove a reutilização dos materiais, protetora do ambiente, do planeta, da fauna e flora, o artista constrói enormes peças (normalmente em paredes de edifícios). As suas obras são indecifráveis ao perto, o que nos convida a distanciar-nos delas para podermos apreciar o que inicialmente parecera um monte de quinquilharia e sucata e agora se nos afigura como algo concreto e definido – quase sempre animais que se integram com a arquitetura. O nada, passa a ser algo através da interpretação de quem vê e sente.



Percam a vergonha e deem um salto pelo trabalho magnífico destes dois artistas lusitanos!


4. Grão a grão, em pedra dura… nem é 8, nem se mede aos palmos!

Zás! O carreto do trangalho dobrou-se, a roda do pivanço empenou e os provérbios mesclaram-se todos numa amálgama de desastre. Como saímos desta?


Sem stress, está aí o Babelite para salvar a situação! Esta web (de estética e aspeto pouco apelativos, há que dizê-lo) procura dar solução a uma das maiores dificuldades dos estudantes de línguas estrangeiras (e até de falantes nativos), enquanto faz também o papel fundamental de registo e arquivo.


As expressões idiomáticas e os provérbios são geralmente uma tremenda dor de cabeça! Representam lições, tradições, lendas, procuram fornecer uma moral ou derivam de factos históricos que frequentemente escapam aos falantes não nativos, sobretudo no início do percurso de progressão linguística. Ainda por cima, são usados com muita frequência e a impossibilidade (quase sempre) de os entender através da tradução literal e direta provoca angústia, chegando a impossibilitar a participação comunicativa eficaz.


Como funciona? Muito simples! Primeiro temos de escolher uma das 5 opções de línguas disponíveis (inglês, francês, castelhano, catalão ou português). Basta teclar a expressão ou a palavra-chave que pretendemos pesquisar e imediatamente são-nos sugeridas várias hipóteses como resultado. Podemos então consultá-las e procurar a que mais se adequa ao contexto em questão.


É fantástico? É apelativo? Não e não, mas procura esclarecer e dar respostas que nem sempre são fáceis, contribuindo para melhorar o conhecimento no domínio dos provérbios e das expressões idiomáticas. Não é excelente, mas é melhor que nada e, como se costuma dizer: quem não tem cão, caça com gato!


5. Curtas brasileiras

E vamos aproximando-nos do final da viagem de esta semana. É sempre bom ter a opção de escolher como acaba, como termina e se conclui o passeio e a aventura. Afinal de contas somos todos diferentes, sendo todos iguais. Aqui oferecemos a possibilidade de escolher como se ramifica o término, o interlúdio até à próxima semana.


Na web Novo Cine encontra-se disponível uma excelente seleção de curtas-metragens brasileiras, com elencos recheados de qualidade (estreias e valores inquestionáveis) e que abrangem um vasto leque de temas e géneros. Um autêntico manjar para os amantes da 7ª arte!


Todos os títulos em versão original e com legendas disponíveis em espanhol e inglês (para os que possam ter maior dificuldade de compreensão do português do Brasil).


Celebremos esta fantástica iniciativa da Embaixada do Brasil em Espanha. Divulgação através da qual ficamos a conhecer o que de melhor se está a fazer, no panorama do cinema mais atual, no outro lado do Atlântico.


Já fomos petiscando… impressionante o trabalho do “gigante” Lima Duarte em “A volta para casa”.


Vão lá buscar as pipocas!


Editorial

Bem-vindos!!!


É com enorme alegria e maior responsabilidade que constato ter um elevado número de pessoas que aceitaram o repto de me seguir nesta aventura. Já embarcaram amigos, família, colegas de profissão, alunos… Vamos lá desfrutar disto e ver quem mais se junta e onde nos leva!


Esta é a primeira edição, o arranque de uma ideia, um projeto, que venho desenvolvendo de forma intuitiva e natural, mas que agora tenta ganhar uma estrutura mais sólida e uma organização mais eficaz. Não esperem, para já, grandes grafismos, fintas estéticas ou decorações exuberantes.


Como sabem trata-se de procurar fazer-vos chegar sugestões e dicas (de qualidade) sobre cultura lusófona e língua portuguesa nos seus mais variados domínios e formas. Tentarei dar maior visibilidade a artistas e projetos que costumam ter uma visibilidade mais reduzida e, simultaneamente, reforçar aqueles nomes que não necessitam apresentações e por isso mesmo devem ser regularmente trazidos à baila.


No final de cada artigo encontram referências para poderem aprofundar mais e obter mais informação sobre os artistas, autores, entidades e projetos abordados. Claro está que a internet está disponível e à vossa espera para poderem sempre descobrir ainda mais sobre algum dos temas de que possam gostar mais.


Vejamos então o que temos preparado neste recém-nascido, o número 0.


Primeiro daremos um passeio pela música urbana atual de alto nível, de mãos dadas com a Capicua, Valete, Emicida e Rael , numa fantástica mistura luso-brasileira homenageando a língua portuguesa sem fronteiras ou barreiras.


Seguidamente podemos espreitar um pouco da vida e obra do escritor moçambicano Mia Couto . Preparem-se para a fantasia exótica que conta vidas e estórias absolutamente extraordinárias.


Também conheceremos uma ferramenta para os amantes das línguas estrangeiras. O Forvo veio para nos ajudar a conhecer e aperfeiçoar a pronúncia em várias línguas, de forma fácil, simples e grátis.


Com a viagem já a mais de meio, aproveitaremos para renovar o ar nos pulmões da alma através da maravilhosa ementa sonora da Rádio Oxigénio.


Finalmente, veremos como um grupo de jovens inconformistas e determinados procuram informar sem mais. Sem lobby, sem interesses, sem âncoras, sem batota… Vai haver Fumaça!.


Francamente genial

O Projeto “Língua Franca” reúne um quarteto de artistas portugueses e brasileiros em torno da ideia de homenagear a língua portuguesa através da música usando ritmos do hip-hop e rap, numa onda urbana em que a mensagem é primordial.



Capicua, Valete, Emicida e Rael, rappers, autores, letristas, todos eles a viver momentos de excelente produção artística, criaram um conjunto de canções em que a língua de Camões toma o protagonismo. Chama a atenção a forma natural que encontraram de construir “pontes” numa época em que muitos se concentram em construir “muros”.


Longe vão os tempos em que dava vergonha cantar em português… e ainda bem! Escolhi o tema “Ela” para vos aguçar o apetite.


O “brincador de palavras”.

Costumo dizer que tenho centenas de livros que ainda não li. Há quem se escandalize, quem ignore ou desvalorize esse facto e quem partilhe desta taça. Realmente não consegui, nem conseguirei brevemente, dar conta de todos os volumes que habitam as estantes cá em casa. Mas uma das coisas mais positivas disto é que de vez em quando tropeço nalgum livro que já anda por aqui estacionado há uns anos e decido começar a lê-lo. Foi este o caso recente com Mia Couto


“Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra” tinha o travão de mão bem puxado desde o Natal de 2002, quando a minha irmã mo ofereceu. No outro dia piscou-me o olho e não resisti a dar-lhe uma oportunidade. E voltou a acontecer o que sempre me acontecera ao ler Mia Couto… Quando se começa já não há volta atrás! A forma como narra os acontecimentos e conta a estória é de tal forma autêntica e genuína que me sinto como se estivesse lá, a viver todos os incríveis acontecimentos. Damos por nós a habitar cenários exóticos e a experimentar uma cultura riquíssima, enquanto nos apercebemos também dos dramas que os conflitos armados e a indefinição política provocaram ao longo dos anos em Moçambique. É quase uma miséria doce… Delicia-me a maneira como brinca e reinventa palavras munindo-se do crioulo e das expressões locais, cruzando-as com a língua portuguesa com um engenho singular.


Entrei de cabeça no universo do autor, fui transportado para uma pequena ilha de Moçambique onde os seus habitantes têm uma relação muito especial com as coisas que não se veem, com os espíritos e a alma. Nesta estória sobre uma família que se vê a contas com um problema para resolver motivado pela morte do patriarca, a natureza abunda e as tradições mandam (quase sempre). O protagonista é o jovem Mariano obrigado a regressar à sua ilha natal e que se vê num emaranhado de fios que ao longo da narrativa se vão desembaraçando com as intervenções de outros através das impressionantes descobertas que ele vai fazendo enquanto (re)descobre a sua casa (a sua terra).


Não há duas sem três, costuma dizer-se. Quando terminei a leitura parei-me a pensar o que leria agora. Fugi da montanha crescente de volumes na mesa de cabeceira e acabei por deixar o coração mandar. Lá fui de volta à prateleira parking e desencalhei outra pérola do autor moçambicano – “Terra Sonâmbula” . E lá ando de volta de este romance considerado por muitos um dos melhores livros africanos do século XX. Sobre este não conto nada, na esperança que a curiosidade “mate” e vos faça espreitar.


Sons na ponta da língua

Quantas vezes nos aconteceu querer dizer uma palavra noutra língua e não ter a certeza de como se pronuncia? Também devem ter tido alguma vez dúvidas ao ouvir uma palavra, não sabendo exatamente quais os sons (fonemas) que lhe correspondem, o que pode gerar dificuldades na escrita.


Durante a navegação pelo mestrado, descobri esta semana o FORVO. Trata-se de uma maravilhosa ferramenta disponível online que permite escutar palavras de imensos idiomas (desde turco e russo a árabe, sueco ou japonês – centenas de línguas). Um dos aspetos que destaco é o facto de ter em conta as suas variantes, por exemplo português europeu e do Brasil ou inglês britânico e americano) com a pronúncia correta. É muito simples. Basta aceder à página e escrever a palavra. Se a palavra constar da gigante base de dados, será apresentada em diferentes variantes. Clicamos na que nos interessa e, zás, ouvimos alguém a pronunciar a palavra.


Parece-me muito útil a nível académico e profissional, mas também no âmbito pessoal. Já vos estou a ver viciados nisto!


Respirar

Acordar cedo, filhos, trabalho, estudos, obrigações, faturas e contas para pagar, compras, transportes, trânsito… ramerrame… lufa-lufa… UUUUFAAAAA!


Preciso de respirar…Todos sabemos o que isto é.


Nesses momentos em que só queremos dispor de alguns minutos para nós, para estar na caixa do nada, relaxar e…respirar fundo, pausadamente e sem pressas, existe uma frequência na rádio portuguesa perfeita. A Rádio Oxigénio (102.6 FM)!


Esta estação apareceu na minha vida há muitos anos e marcou-a profundamente. Foi culpa de amigos, a descoberta não foi minha. Ao som das suas riquíssimas propostas musicais respirei em diversas situações. Recordo as viagens diárias no comboio da linha de Cascais, ensonado, observando o Tejo, o horizonte com pinceladas de eletrónica, jazz ou hip hop. Os regressos a casa, com o sol a descer ao som de DJ’s que apostavam em grooves enérgicos e divertidos enquanto contextualizavam o que se ouvia (que artista, que ano, qual o disco e estilo…). Os programas de reggae ao sábado de manhã enquanto se lia o jornal. As danças animadas, repletas de energia positiva, com amigos em terraços e festas ao ar livre. Enfim… tantas estórias e tantos momentos.


A abordagem e linha programática é muito particular e foge bastante ao mainstream. Aprecio imenso o esforço por contemplar os diversos estilos musicais, criando uma plataforma democrática onde cabe de tudo um pouco, mas apenas tudo o que tem qualidade. Passam vários programas de especialidade com convidados e gente que vive a música e da música. Som brutal 24/7.


Convido-vos, pois, a chegar o ouvido a esta frequência. Está disponível online, além da forma mais tradicional na “velhinha” FM.


Vai valer a pena RESPIRAR!


Notícias fumegantes

Numa era de informação massiva, globalizada, imediata surge um projeto que pretende fazer jornalismo de uma forma “independente, progressista e dissidente que aposta no jornalismo de investigação em áudio, feito com profundidade e tempo para pensar”.


Choquei com o Fumaça muito recentemente. Foi uma dica preciosa de um grande amigo, um “maninho” como eu gosto de dizer. Dei uma vista de olhos nas publicações disponíveis na web e gostei bastante do tom, o seu enfoque, o estilo comunicativo e a perspetiva ou ângulo informativo


Está formado por uma jovem equipa multifacetada de gente com experiências variadas e ricas, num estilo cool, sério e responsável onde se nota uma enorme determinação em levar para a frente as convicções que originaram o projeto.


Parece-me que podem contribuir positivamente acrescentando um modo diferente de estar num meio em que, é sabido, se movem interesses, lobbies e poderes instalados. Passem pela web e deem uma vista de olhos. Se gostarem podem sempre dar uma ajudinha para este projeto continuar a caminhar.


Editorial

Cá estamos de volta com mais estórias para dar um toquezinho de cor e sabor ao fimde-semana que já espreita. Preparem-se para mexer bem esses ossos, pois temos uma edição estimulante e que certamente vai ativar os 5 sentidos, numa nova viagem por várias latitudes.


Chave na ignição e arrancamos deixando o Cais do Sodré atrás. Metemos a 1ª e soltando a embraiagem rapidinho, rodas a derrapar, já estamos a rolar a alta velocidade como o Gustavo Ribeiro na sua tábua. Curvas, saltos e peripécias garantidos, pelo meio de cenários urbanos únicos. Não esqueçam o capacete!


Engrenamos a 2ª, sem deixar desembalar, e num pulo vamos avançando pela Marginal aos som da East Side Radio. Abrimos a pista de dança contagiados pelos ritmos alegres e coloridos que jorram das colunas como cataratas dançantes.


A 3ª vem em seguida, mas aqui temos já uma acalmia. A mudança arranha ao entrar… sem problema, agora há tempo. Vamos lá assimilar e digerir com calma a estória “animada” de Vasco Granja, o professor que ensinou uma geração através da sua paixão pelos desenhos animados.


Estamos a chegar ao Guincho… o mar embravece-se, o vento levanta-se, os deuses manifestam-se, os papagaios losango sobrevoam as dunas e como se pudéssemos continuar a conduzir pelo Atlântico adentro, metemos a 4ª e relaxamos. Apetece pensar em coisas divertidas e que nos façam soltar umas valentes gargalhadas. Tocamos solo brasileiro e entramos pela Porta dos Fundos! Ironia, sarcasmo, toques na ferida, crítica acutilante e rir como se não houvesse amanhã.


Nada como finalizar em velocidade cruzeiro. A 5ª vai soltinha e encaminha-nos para


Cabo-Verde com passagem rápida por Portugal. Somos recebidos pelo imenso sorriso de Lura e inebriantes ondas de boa vibe. Convite para deixarmos corpo e mente guiarem-se pelos ritmos cálidos desta magnífica intérprete que mistura na perfeição as raízes africanas com as vivências em Portugal.


Até já!


1. Rolamentos alfacinhas

Fica difícil escrever com calma sobre quem anda normalmente a rodar a grande velocidade.Gustavo Ribeiro (skateboarder) tem demonstrado ser um verdadeiro prodígio numa atividade que reúne em si mesma inúmeras características. Desporto radical, movimento urbano, arte expressiva ou grito de emancipação para alguns. Sem dúvida, uma paixão incontrolável para os seus amantes e praticantes.


Este jovem lisboeta (19 anos) tem deixado o mundo de boca aberta com a sua genialidade e destreza incomuns para dominar o skate. Capaz de realizar manobras e truques incríveis (criador inclusive de movimentos novos), que por vezes nem em câmera lenta se conseguem entender ou percecionar na totalidade. Gustavo vem ganhando cada vez maior notoriedade e prestígio, pelo que tem viajado e levantado a bandeira portuguesa por este mundo fora.


Em 2019 obteve a medalha de bronze no campeonato do mundo, numa prestação e demonstração de mestria incrível. Não estranha portanto que faça parte de um restrito grupo de atletas (SLS “9 Club”) onde se encontram aqueles que conseguiram obter uma nota 9 ou superior por um truque ou manobra realizado durante um campeonato mundial de Street Skating.


Atualmente, faz parte da equipa profissional de renome mundial Red Bull e representa a JART Skateboards. Apesar de o solo ser o habitat natural onde expressa a sua arte, o céu parece ser o limite.


Saltem daí e venham ver algumas manobras vertiginosas e alucinantes!



2. Discos à solta

DJ sets em jeito de autêntica filigrana sonora, malta cheia de garra e com muita música dentro. Veterania certificada e com provas dadas, mas também sangue novo cheio de vontade de despontar. É o que nos espera neste projeto de radio online iniciado em 2019 por André Granada e Tiago Pinto (duo que forma Funkamente) com o objetivo de passar música sem uma linha editorial rígida e cuja programação não seja formal nem regular como acontece normalmente nas rádios FM. Aqui o foco está na arte dos convidados e na sua seleção musical.


Atualmente, de modo provisório, têm o estaminé montado nas traseiras da mercearia mexicana Pistola y Corazon e é desde aí que emitem.


A East Side Radio promove uma programação diversa que dura das 14h às 18h, de segunda a sexta-feira onde o convidado de serviço faz as honras da casa.


Parem e escutem atentamente!


3. O eterno menino pedagogo dos “bonecos”

Quem nunca vibrou com as ousadias, as aventuras e desventuras, os enredos e rápidos twists, as lutas entre os bons e os maus, as derrotas e a glória, as façanhas dos superheróis? E há por aí alguém que não tenha sido extraordinária e repetidamente feliz navegando no universo dos desenhos animados?


A infância nutre-se desses mundos de personagens fantásticos, nas suas cores e formas deslumbrantes, nas possibilidades ilimitadas e também através da possível identificação que fazemos com alguns desses seres imaginados que, no fundo, têm vida própria. Talvez parte da formação do caráter até se jogue nessas partidas, nessas fascinantes sessões de desenhos animados.


Ultimamente, nas bizarras circunstâncias que vimos experimentando nos últimos meses, precisamos cada vez menos de vilões e desejamos que cheguem cada vez mais heróis que nos ajudem e nos motivem para seguir em frente. Um dos meus super-heróis é na realidade humano (verbalizo no presente, apesar de já ter partido) e fez algo que merece um franco tributo que procuraremos fazer humildemente aqui no nosso espaço. Vasco Granja (apresentador, cineclubista e professor) foi um dos maiores responsáveis pela difusão dos desenhos animados naquele ido e profundamente rural Portugal dos anos 70.



Durante anos e anos (em mais de 1000 emissões) este Sr. com ar de “cientista louco”, com cabelo grisalho e meio desgrenhado, óculos de massa, entrava assídua e magicamente pelas nossas casas. No seu sorriso permanente, era ele quem nos levava a alegria, o entusiasmo, a criatividade e magia, em suma a magnificência única dos desenhos animados na TV. Fazia-o numa linguagem que não sendo paternalista ou abebezada nós, crianças, entendíamos perfeitamente. Recordo como enquadrava e contextualizava o que se ia ver em seguida, nas suas introduções. Aproveitava sabiamente aquele espaço de entretenimento para introduzir referências culturais, artísticas e históricas. A genialidade de juntar o útil ao agradável – “sim, veem desenhos animados, mas entretanto também aprendem!”



Falamos do tempo em que os miúdos do bairro se juntavam nas casas dos amigos para verem os desenhos animados na televisão. A pantera cor-de-rosa, o Bugs Bunny e o Duffy Duck, o Mickey, o Tom e Jerry… Era a antecipação, a conversa prévia, os deliciosos lanches preparados com carinho pelas mães e avós… depois, em silêncio, os olhos pousavam no ecrã tentando não perder pitada. E quando acabava a magia, era continuar a sonhar transpondo as aventuras para as brincadeiras, já com a expectativa posta na sessão da tarde seguinte.


Fica, pois, o convite para que espreitem alguns desses momentos que marcaram indelevelmente e de forma positiva a vida de muitas crianças, deixando belas e bonitas recordações em toda uma geração.


4. Humor tropical

No cinema, o que acontece lá atrás, nas traseiras de casas, restaurantes, lojas e outros locais, costuma ser misterioso. É frequentemente algo que manifestamente se pretende ocultar e esconder. Nessa retaguarda entram personagens suspeitos, de forma sorrateira e à socapa. Também saem em corrida sujeitos em fuga, almas penosas e assustadas… É justamente nessa dualidade de entradas e saídas em terrenos pantanosos, que outros evitam ou procuram manter à distância, que a Porta dos fundos se movimenta livremente e com um à vontade estonteante.



Este coletivo brasileiro de excelentes atores toca sem medo e sem tabus os temas mais delicados da sociedade. Vamos rir-nos enquanto pensamos e refletimos sobre política, relações amorosas, ambiente laboral, religião e espiritualidade, estereótipos, racismo, e tantos outros assuntos atuais, pertinentes e nem sempre fáceis de abordar.



Humor ácido e acutilante baseado em guiões fantasticamente estruturados que recriam fielmente situações quotidianas que com um toque de especiarias ganham a dimensão exagerada, ridícula ou absurda que as torna irresistivelmente hilariantes.



Eis algumas sugestões para aquecer os motores. No canal oficial do Youtube encontrarão centenas de propostas imperdíveis.


5. A voz crioula com berço luso

São já mais de 25 anos de carreira repletos de discos, tournées pelo mundo fora, participações em projetos discográficos variados (Red Hot + Lisbon foi um dos mais destacados pela crítica), dança e energia contagiante. É impossível assistir a Lura em palco e ficar indiferente às suas atuações. Essa energia contagiante chega-nos também quando ouvimos as canções gravadas em estúdio.


Nascida em Lisboa, desde muito jovem começou a dominar o crioulo cabo verdiano que aprendeu junto da família, amigos e colegas de escola. O seu amor pelo país originário dos seus pais levou-a a cantar e compor usando essa língua e também reunindo as influências que estão na génese musical que caracteriza os sons nascidos nessa costa atlântica do continente africano.


A oportunidade que teve de trabalhar e acompanhar de perto a lenda da música cabo verdiana Cesária Évora (em Lisboa durante a Expo 98 e em Paris numa série de concertos), a participação no Festival RTP da Canção foram, entre outras, experiências que a ajudaram a construir uma carreira sólida que conta com inúmeros discos editados. Tem-se afirmado ao longo dos anos como uma das principais embaixadoras da música e cultura cabo verdianas.


Deixem-se guiar pela energia única desta diva, ao som de ritmos mexidos!



Editorial

Nesta última edição de 2020 (fazemos uma pausinha paras as festividades) queremos levar-vos alegria e positividade, já com os olhos e o coração esperançadamente postos no 20+1.


Vamos pois dedicar esta edição à música e dança como meio de celebração e detox. O nosso gira-discos deixará que nos adentremos num vinil múltiplo e pluralista, um universal esperanto sonoro, para navegar embalados pelas melodias criadas em diferentes lusofonias.


No final de um 2020 tão singularmente surpreendente, tratemos de celebrar a união, o conjunto, a cooperação, a amizade entre culturas, nações, raças de homens e mulheres. Demos voz, usemos a linguagem do mundo, aquela que é una e que todos conhecem. A da paz, da empatia, da tolerância, do respeito e do amor!


A agulha toca o disco, o som vintage, o ruído fino da antecipação e somos imediatamente arrebatados pelo ritmo. Chega Gonzaguinha espalhando alegria e cantando a inabalável esperança de um povo.


Continuamos a escuta, agora com mais intensidade na poesia cálida e doce de Eneida Marta Cantam-se e contam-se estórias de vidas e de uma terra onde apesar das dificuldades, há sempre espaço para mais um sorriso genuíno.


O set atinge o seu ponto médio. Baterias já recarregadas e alma sanada, urge novo momento dançante e Pacas vai tratar do assunto. Contem com movimento, energia contagiante através da união das influências africanas com inúmeros géneros e uma capacidade interpretativa incomum.


Não deu para descansar… Vamos deixar-nos guiar pelo experimentalismo e a conjugação de sonoridades que aparentemente podem parecer distantes ou que dificilmente namorariam num mesmo palco. Orelha Negra conduz-nos por uma travessia de intensidades variáveis onde a música surge como uma amálgama sonora perfeita.


Em jeito de fecho, vamos acendendo progressivamente as luzes apontadas para a pista. O baile vai ficando mais morninho. A cadência afrouxa. Os corpos acalmam e descansam. Amaura murmura-nos ao ouvido a sua vida feita poesia e voltamos à realidade mais equilibrados.


A agulha levanta-se lentamente e volta ao ponto de partida. Mente sã e corpo são!


Estreamos também una nova secção – (in)Raizados – onde contaremos em cada edição a estória de lusófon@s que fazem a sua vida por aí, nos cantos arredondados do mundo.


Até já!


1. Cantar a felicidade

É samba, é bossa nova e é aquela batida enérgica e alegre que transpira no sorriso do povo brasileiro. É a esperança, a crença na felicidade mesmo quando ela parece estar bem longe do nosso alcance. É Gonzaguinha!


O compositor e cantor, apesar da sua breve carreira (faleceu prematuramente num acidente de automóvel durante uma das suas digressões em 1982), conquistou a nação. Filho de uma outra lenda musical, Luís Gonzaga, iniciou a sua carreira num tom mais crítico e ativista, mas ao longo da sua discografia vai-se aproximando mais de temas como o amor, a amizade e a felicidade. Eis dois temas icónicos e que impossibilitam manter o pezinho parado no chão.


O que é que é?



Música e trabalho: é



2. Dureza doce

Esta guineense, combina de uma forma moderna e atual as tradições musicais do seu país de origem usando instrumentos tradicionais como a corá , o balafon e percussão com cabaça, em arranjos de uma beleza sonora indescritível. Nos seus discos combina os estilos tradicionais da Guiné como o Gumbé, o Tina, o Singa, o Djanbadon, o Afro-beat e canta em Mandinga, Fula, Crioulo, Futa-Fula e Português


As canções de Eneida Marta não nos deixam indiferentes, elas contam rostos duros e profundos, também a alegria, o (des)amor, as agruras da vida, a força das mulheres, a família, as paisagens maravilhosas da Guiné-Bissau e o seu fantástico povo. Embarquemos na melosa voz ao colo dos deliciosos dedilhados e batidas da sua obra.


Amor livre



Mindjer doce mel



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3. Na rua de todos

Nascido em Luanda, crescido em Lisboa. Quase 3 décadas dedicadas à arte e pelo meio imensos quilómetros em tournée (Tabanka Djaz, They Must Be Crazy, entre muitos outros), inúmeros palcos e a participação em projetos variados de música, dança e animação cultural.


Pacas é tudo isto e mais. A sua música é como o sorriso que ostenta sempre: grandiosa, contagiante e enérgica. Nas suas canções coabitam inúmeras influências e géneros musicais que vão desde o soul e jazz, ao rap e hip hop, funk e pop, tudo bem temperado com o calor do jindungo africano e moderado pela urbanidade lisboeta, numa interpretação singularmente intensa. Topem só algumas das faixas bailantes do seu mais recente álbum “A rua é minha”.


Boato



Geração Yo!



4. Laboratório sonoro

Experimentalismo controlado e com altíssima qualidade! Estes “cientistas” musicais, em 2010, pegaram nas sinergias que foram descobrindo ao longo de colaborações em estúdio e na estrada e criaram, como se de um laboratório se tratasse, um projeto com uma sonoridade realmente única.


Em Orelha Negra estamos perante um grupo constituído por elementos de diferentes gerações, distintos backgrounds musicais (temos jazz, hip hop e rap, funk…), que através de uma espécie de comunhão sem censura ou travões criativos realiza um cruzamento extremamente profícuo de influências aproveitando o melhor que cada um tem para dar através da sua experiência.


Chama também a atenção ver como instrumentos como o baixo elétrico, a bateria e as teclas se unem plenamente e de forma harmonizada com os scratches do DJ e os samples lançados por Sam the Kid. Deixo-vos navegar livremente neste universo muito particular e tão especial.


M.I.R.I.A.M.



Parte de mim



5. Com a alma aberta

A enorme maturidade pessoal e musical refletem-se na carreira de Amaura . A artista está sem dúvida a passar por um momento brilhante e de grande produção.


Habituada a participar e colaborar com vários artistas nos seus projetos, nos trabalhos que lançou individualmente é clara a presença assumida de R&B, soul e jazz nos arranjos. Destaque também para o cunho pessoal das suas letras que contam amores mal-amados, desilusões geracionais e inconsistências com o próprio ser. Fechamos a sessão com esta bela voz, numa boa vibe.


Denso



EmContraste



(in)Raizados

Esta nova secção está dedicada a contar as aventuras e desventuras, as peripécias e o quotidiano de pessoas fantásticas que nasceram em países lusófonos e agora andam pelo mundo fora fazendo pela vida, fazendo a sua vida e espalhando a língua portuguesa pelos 4 cantos do globo.


Gente ordinária que faz coisas tão extraordinárias como simplesmente andar de bicicleta, dedilhar uma guitarra, tratar e cuidar de animais, plantar flores, cozinhar petiscos, passear à beira-rio, dançar com amigos, desenhar paisagens ou escrever poesia… Onde nasceram e onde vivem, com quem partilham os seus dias, o que fazem nos seus tempos livres, quais os seus projetos profissionais?


Estreamos este espaço com a fabulosa estória de uma grande amiga – a Lena .


Helena Matos (40 anos, Antuérpia)


Nasci em Lisboa e sou a segunda filha de um jovem casal de retornados. Fui uma criança tal como as outras mas que, desde sempre, soube que o meu futuro não seria em Portugal. Aos 3 anos, pelo que conta a minha mãe, já lhe dizia que eu não era dali, que vinha de França.


Estudei em Lisboa, onde me formei em gestão de empresas e comecei a trabalhar numa conhecida empresa internacional. A experiência não foi muito boa e cedo soube que aquele não era o meu lugar.


Em fevereiro de 2005 surgiu um projeto em Barcelona, numa ONG, como responsável por projetos internacionais de voluntariado. Apesar de não ser a minha especialidade, tinha tanta vontade de viver e conhecer coisas novas que aceitei logo o desafio. Foi o início da minha aventura! Em Barcelona aperfeiçoei o meu espanhol e aprendi catalão. Conheci pessoas de inúmeros países e vivi experiências novas e inéditas. Adaptei-me à realidade do momento e, passados alguns meses, conheci o meu atual marido – o Jelle. Ele é belga e estava a fazer o mesmo tipo de trabalho que eu noutra ONG catalã.


O tempo passou e surgiu a oportunidade de fazer o mesmo trabalho, mas em Paris. Aceitei sem hesitar e, em meados de 2006, enquanto o Jelle voltava para a Antuérpia, comecei a viver na capital francesa. Foi uma experiência espetacular! Para nos vermos, viajávamos de 2 em 2 semanas de TGV, entre a França e a Bélgica.


Ao fim de meio ano o meu projeto acabou e decidimos ir viver juntos para a Antuérpia. 2007 foi um ano de altos baixos. Por sorte, encontrei logo trabalho, mas as mudanças foram tantas num pequeno espaço de tempo, que fiquei doente. Foi o início de uma doença crónica com a qual tive de aprender a viver e que hoje em dia está controlada.


Sou uma pessoa positiva e com a ajuda de família, amigos, festas e viagens consegui dar a volta e, em 2011, decidimos começar a tentar ter filhos. Em 2012 nasceu o Daniel. Passados 2 anos, voltei a ficar grávida. Infelizmente, durante o nascimento houve complicações, e a Laura faleceu. Foram momentos dificílimos. Para ser sincera, tenho a sensação que 2014 foi um ano em que não vivi…só respirei. A nossa vida parou naquela época mas, pouco a pouco, com muito esforço, em 2015 começámos a dar a volta. No fim desse mesmo ano, voltei a ficar grávida e, em 2016, nasceu a nossa estrelinha de esperança – o Mathis.


Os anos foram passando, mudei de trabalho, aprendi novas línguas e conheci novos amigos. Ri, chorei, aprendi a viver o dia a dia e hoje, em tempos de pandemia, não me deixo levar pelo pânico. Sempre que ele “bate à porta”, olho para trás e penso: isto é apenas mais uma parte da minha aventura! Uma nova estrelinha de esperança chegará.


És ou conheces algum (in)raizado sobre quem possamos contar estórias aqui no LUSO QUÊ?? Escreve um breve texto com esse relato, junta uma foto do(s) protagonista(s) e envia-o por escrito para o endereço eletrónico disponível em O vosso espaço. Se és daquelas pessoas que dizem não ter jeito para escrever, contacta-nos e nós ajudamos-te a dar forma à aventura que tens para contar – as boas estórias não se podem perder!


Agradecimentos


Muito obrigado pela vossa colaboração e pelos “grãos de areia” lançados ao projeto: Helena Matos, João Antunes, Nacho Flores e Pedro Sereno.